sexta-feira, 17 de outubro, 2014

Cacau fino anima produtores na Bahia

Após períodos de grande desestímulo nas últimas décadas, a cacauicultura baiana, responsável por cerca de 70% da produção nacional da amêndoa, começa a ganhar novo fôlego a partir de projetos focados em produtos diferenciados, de qualidade superior. E é por meio de um desses projetos, desenvolvido para servir de modelo de sustentabilidade - ambiental e social -, que o empresário Guilherme Leal, fundador da Natura, está fazendo sua primeira incursão no segmento agrícola.
Os planos de Leal ganharam contornos mais nítidos em 2012, com a aquisição de uma propriedade no sul da Bahia, onde se concentra o cultivo de cacau no Estado. Localizada entre os municípios de Uruçuca, Ilhéus e Itabuna, a propriedade estava abandonada, mas já tinha cacaueiros. Agora, está sendo recuperada pela Agrícola Condurú, criada para gerir o novo negócio. A empresa iniciou suas atividades em fevereiro passado, sob a batuta da diretora-executiva Patricia Moles - que presidiu, de 2010 a 2012, a Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), que representa a maior parte das indústrias processadoras da matéria-prima instaladas no país.
Por email, Leal concedeu ao Valor sua primeira entrevista sobre o projeto. Fez logo questão de esclarecer que não há ligação entre a Natura e a Condurú - a não ser o fato de que a "Natura também começou pequenininha" -, e explicou que a empresa agrícola está sob o guarda-chuva do Instituto Arapyaú, que concentra projetos propostos por ele. "Desde que chegamos à Bahia, em 2004, buscamos nos conectar a uma rede de organizações e lideranças no litoral sul empenhadas em cuidar das pessoas e da paisagem desse lugar único, dono de uma das maiores biodiversidades do planeta", disse.
De acordo com o empresário, a iniciativa permitiu entender que a revitalização mais ampla de todo o território envolvido exigia o fomento de algumas atividades econômicas-chave. "Foi aí que aprendemos sobre o papel de algumas cadeias produtivas presentes na região (silvicultura, cacau/chocolate, ecoturismo e serviços ambientais) e decidimos iniciar, com a Agrícola Condurú, um experimento em cacau e chocolate".
Para Leal, há boas oportunidades de mercado derivadas do crescimento da demanda por chocolate de maior qualidade no Brasil e no mundo. Ele lembra que, nos países de renda mais alta, há uma classe crescente de consumidores preocupada com qualidade, sustentabilidade, certificação de origem e processos produtivos. E esse movimento, diz, é o motor para um novo ciclo de crescimento da cadeia de cacau e chocolate finos.

Patricia Moles reforça que o Brasil é um grande consumidor de chocolate e atualmente precisa importar, todos os anos, volumes significativos de cacau para atender à demanda das indústrias. Daí as oportunidades de negócios à disposição dos participantes do projeto da Condurú - que também ganha força pelo apelo ambiental que tem, já que o cultivo da amêndoa não é necessariamente uma ameaça à preservação da Mata Atlântica. A maior parte da produção de cacau na Bahia é feita pelo sistema conhecido como "cabruca", que consiste no plantio à sombra de árvores, e as florestas plantadas com esse intuito também podem ser transformadas em fonte de renda para o agricultor.
O objetivo da Condurú é inovar não só no cultivo, mas também na gestão do negócio, com a repartição dos benefícios com o trabalhador. "Esperamos ser um exemplo a ser espalhado", diz Patricia. A propriedade da empresa no sul da Bahia tem cerca de 500 hectares. Para recuperá-la, está em curso um processo de adensamento que permitirá o plantio de mil árvores por hectare. Com essa prática, aliada à nutrição do solo, é viável alcançar maiores produtividades - de até 1 tonelada por hectare, conforme a executiva. Na região, o rendimento médio, considerado baixo, é inferior a 300 quilos por hectare. Ela estima que, em cinco anos, o ganho de produtividade almejado poderá ser alcançado.
Outra meta da Condurú é "explorar" melhor o que está dentro da fazenda. Não só as variedades de cacau presentes na propriedade, mas também outras espécies, como madeiras, cajá, jaca e banana, por exemplo, além de tipos diferentes de solo. "Conhecer melhor é entender os atributos [do cacau]. Somos os primeiros a fazer um inventário do cacau", explica.
Por isso, a Condurú quer compartilhar suas experiências. Já foi fechada uma parceria com a Unicamp para a realização de estudos sobre a fermentação do cacau - importante para a qualidade do produto - e para o desenvolvimento de técnicas inovadoras, mas a empresa pretende estabelecer vínculos com outras instituições acadêmicas, indústrias, artesãos de chocolate e consumidores. Condurú já comercializa a amêndoa com certificação UTZ (que atesta práticas sustentáveis) desde o ano passado, em volumes muito pequenos. A empresa não descarta vender para grandes indústrias, desde que elas tenham interesse em um cacau de qualidade superior.
Apesar das oportunidades promissoras e da recente alta das cotações internacionais do cacau, Guilherme Leal lembra que ainda há muito trabalho pela frente. "Trata-se de uma cadeia complexa, ainda em crise, endividada, oligopolizada, com preços 'commoditizados' e que tem que competir com a alta produtividade de novas regiões cacaueiras". Desafios à parte, o potencial do segmento é enorme.
Conforme Leal, alguns estudos sinalizam que a produção de cacau no litoral sul da Bahia poderá triplicar e gerar 300 mil novos empregos em 20 anos. "As condições para isso, a meu ver, estão todas lá. Com boas experiências e articulação, é possível construir uma nova narrativa para o cacau e o chocolate da região".
Valor Economico
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