terça-feira, 15 de setembro, 2015

Diante de preço maior, consumidor troca de marca

A indústria de alimentos em conserva enfrenta dificuldades para manter margens de lucro neste ano, devido ao dólar mais caro - a moeda americana acumula alta de 45,5% em relação ao real. Companhias ouvidas pelo Valor não conseguem repassar ao preço final toda a elevação de custos de alimentos importados e embalagens, cotados em dólar.
"Tentamos um reajuste de 8%, ainda com o dólar a R$ 3,20, mas não conseguimos. Com o preço mais alto, o consumidor troca de marca", diz Antonio Carlos Tadiotti, presidente da Predilecta. De acordo com o executivo, a crise na economia brasileira já afetou o consumo das classes C e D.
E mesmo as classes A e B resistem a reajustes de preços. Para o ano, a Predilecta projeta um crescimento na receita de 12% a 15%, "mas a rentabilidade será completamente prejudicada", frisa Tadiotti. A Predilecta investiu entre US$ 7 milhões e US$ 8 milhões neste ano na automatização de suas linhas de produção, como parte da estratégia para reduzir custos.
A fabricante de conservas La Violetera reduziu o seu quadro de funcionários de 480 para 400 pessoas nas fábricas e também investiu na automatização. "Fizemos investimentos de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões em automatização, para melhorar a produtividade. Mas, mesmo assim, a companhia não vai conseguir manter as margens de lucro do ano passado", diz o diretor-geral Felix Boeing Júnior.
De acordo com o executivo, alimentos como alcaparras, pepinos e alcachofras tiveram aumentos de 20% a 40% nos preços de importação, devido à desvalorização do real frente ao euro e ao dólar. A La Violetera reajustou os preços em 15%, quando o dólar chegou a R$ 3,30, e planeja fazer um novo aumento de 15% no fim do ano. "A alta do dólar foi muito forte, difícil de absorver. Em consequência, todas as linhas de conservas de valor agregado mais alto sofrem", afirma.
A exceção foi o segmento de azeitonas - principal fonte de receita da empresa. O custo de importação do produto ficou estável neste ano, devido a uma safra farta na Argentina. A La Violetera fechou o primeiro semestre com crescimento de 12% em volume de vendas e de 15% em receita. Para o ano fechado, a empresa estima um crescimento de 7% em volume, com deterioração na demanda, e de 10% na receita, chegando a R$ 300 milhões.
A Hemmer Alimentos projeta crescimento de 10% a 12% na receita em 2015. "Continuamos crescendo, pela entrada em outras regiões e mercados e a criação de produtos", diz o gerente comercial Elisandro Nunes Rosa. Se o real não voltar a ganhar forla em relação ao dólar, o brasileiro vai retroagir no seu hábito de consumo, diz Rosa. "Com o mercado recessivo, dificilmente comprará uma caponata de berinjela a R$ 25", exemplifica.
A Hemmer reajustou os preços entre 8% e 20% no ano, a depender do produto. A companhia também expandiu a distribuição de suas linhas para as regiões Nordeste e Centro-Oeste e começou a exportar. Em 30 dias, inicia as vendas para Uruguai, Colômbia e Peru.
No Brasil, os consumidores estão ariscos a aumentos de preços, mas La Violetera, Hemmer e Predilecta pretendem tentar novos reajustes para o varejo no quarto trimestre, quando as vendas costumam ficar mais animadas com as festas de fim de ano.
De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), o segmento de conservas vegetais e sucos teve aumento nominal de vendas de 6,97% de janeiro a julho, em comparação a igual período de 2014. Descontada a inflação, as vendas caem 1,19% no acumulado do ano.
Já no segmento de pescados em conserva, as indústrias conseguiram manter os preços graças a safras mais fartas de sardinhas e atuns no mundo. Mas os preços estáveis ainda não estimularam o consumidor a fazer uma ampla substituição de outras proteínas pelos peixes em conserva.
O segmento de peixes em conserva, que movimentou R$ 2,8 bilhões no ano passado, segundo a Euromonitor International, trabalha com perspectiva de crescimento de 3% em volume de vendas e receita neste ano - bem abaixo da inflação de 9,2% esperada para o país neste ano, segundo o Boletim Focus, do Banco Central.
A Camil, dona das marcas Coqueiro e Pescador, chegou a crescer acima de 10% em 2014, mas neste ano desacelerou e teve um incremento de vendas similar ao do mercado. Segundo dados da consultoria Nielsen, as vendas de pescados em conserva no país subiram 3% até julho. No caso da Camil, o aumento foi de 3,3% em receita e 3,1% em volume no período. "É um resultado satisfatório dentro do cenário econômico atual de retração", afirma Andrea Martins, diretora de marketing da Camil Alimentos, a maior empresa do setor de conservas no país, segundo a Euromonitor, respondendo por 39,9% do mercado de pescados..
A executiva acredita em um aumento da frequência de consumo de peixes em conserva nos próximos meses, conforme a crise econômica se aprofunda, e os preços estáveis das sardinhas e atuns tornam essas proteínas mais atraentes aos brasileiros em relação a outros tipos de carne.
O Grupo Calvo, dono da marca Gomes da Costa, é a segunda maior empresa no ranking da Euromonitor, com 38,7% de participação. A Conservas Calvo prevê um crescimento de 7% em receita neste ano, chegando a R$ 1,28 bilhão - o volume de vendas seria de 4%.
Luís Manglano, diretor de marketing da Gomes da Costa, diz que as vendas de pescados aumentaram 4% até julho, em relação a um ano antes, mas não há perspectiva de aumento da demanda nos próximos meses. "No ano passado, as vendas de pescados em conserva cresceram 20%. A base de comparação já é grande", afirma.
A Conservas Calvo reforçou em 2015 a oferta de vegetais em conserva (azeitonas, palmitos, alcachofras e aspargos) como estratégia para ampliar a receita com produtos de maior valor agregado. "São itens voltados principalmente para classes A e B, que têm o orçamento menos afetado no momento de crise. As nossas vendas de alcachofra, por exemplo, cresceram 120% neste ano", compara Manglano. O executivo prevê quintuplicar as vendas de vegetais em conservas até 2020.
A Heinz, terceira maior empresa do setor de conservas, foi procurada pelo Valor, mas não tinha porta-voz disponível.
Valor Economico
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