terça-feira, 15 de setembro, 2015

Com venda de moinho para Bunge, Pih sai do 'campo' e prepara nova investida

O presidente do Grupo Pacífico, Lawrence Pih, diz que lhe causou tristeza a venda do moinho que leva o nome do grupo, um dos maiores da América do Sul, para a Bunge. Em razão do acordo de confidencialidade firmado na transação, o empresário não pode comentar os motivos que o levaram a vender a unidade fundada pelo seu pai, um capitalista refugiado do regime chinês na década de 1950 que viu no Brasil boas oportunidades de recomeço. Mas ele esclarece que sua melancolia depois de assinar os papéis com a multinacional americana, em 28 de agosto, não foi de fundo material, mas emocional. E sinaliza que sua recuperação está em andamento, já que se prepara para novos investimentos.
Pih começa a definir o que fará a partir de agora, no auge dos seus 72 anos - "só faço 73 em dezembro", reforça, em referência a uma matéria publicada recentemente por este jornal na qual esses meses que faltam para seu aniversário não foram levados em conta. Seu plano é investir em uma área onde o grupo que preside ainda não atua. Três estão no alvo: educação, saúde e infraestrutura, sendo que a aposta na terceira já orbitava seus planos: disputar concessões públicas para operações portuárias.
Qualquer um desses caminhos exigirá um salto expressivo em termos de alocação de capital, afirma o empresário. Portanto, adianta, além dos recursos advindos da venda do Moinho Pacífico para a Bunge, cujo valor não foi revelado, Pih planeja desmobilizar cerca de 40% de seu estoque de imóveis - que totaliza 2 milhões de metros quadrados em terrenos - a fim de reforçar as baterias. O plano também inclui a busca de investidores no exterior para engordar o montante necessário, que, segundo ele, está na casa dos "bilhões de reais".
Há cerca de 50 anos, Pih obedece a uma rotina que envolve uma jornada de trabalho de 70 horas semanais - uma média de 14 horas diárias de segunda a sexta-feira. "Nos fins de semana trabalho. Nas férias, também". Ao falar sobre essa sua característica, ele lembra que, em seus primeiros 26 anos de dedicação ao moinho, não tirou sequer um dia de férias. "Estou sempre trabalhando".
A operação moageira - cuja venda só será efetivada após o aval de órgãos reguladores - ainda absorve a maior parte desse tempo. Os investimentos no mercado de capitais, feitos por ele no mundo todo, ocorrem concomitantemente às pesquisas que são realizadas para sempre otimizar a operação do moinho, localizado em complexo no porto de Santos (SP) formado por armazéns e um berço de atracação de navios.
Ainda no dia a dia do trigo, Pih quer esperar cerca de seis meses para bater o martelo sobre sua nova aposta. É o tempo que considera razoável para consolidar suas ideias. E o futuro do moinho, que em alguns meses ficará a cargo da Bunge, tende a ser promissor. A multinacional já sinalizou que a unidade, que atualmente opera com um pouco mais de um terço de sua capacidade, será sua plataforma de crescimento no segmento no Estado de São Paulo.
Apesar de toda a turbulência econômica no Brasil, sua escolha é continuar investindo no país. "É nesses momentos de crise que aparecem as oportunidades". E ele espera aproveitá-las, não por outro motivo está disposta a ser desfazer de parte dos terrenos de seu estoque imobiliário. "Terrenos parados também geram despesas, como em limpeza, manutenção e recolhimento de tributos", justifica.
No agronegócio, Pih afirma não ter mais o que o encante. "Minha missão nesse projeto se encerrou". Após decidir em qual novo projeto vai embarcar, o empresário pretende prospectar investidores no exterior. "Os ativos no Brasil estão baratos em dólar". Ele não se incomoda em ser minoritário - o que pode acontecer, a depender dos aportes necessários no rumo que escolher. Mas faz questão de ter papel ativo na nova empreitada.
Quando concedeu esta entrevista, alguns dias antes de a Standard & Poor's rebaixar o rating do Brasil de grau de investimento para grau especulativo, Lawrence Pih já estava entre os que acreditavam que esse rebaixamento não aconteceria apenas no próximo ano.
Segundo ele, um eventual rombo nas contas públicas de R$ 30 bilhões em 2016 não é o único motivo para a desconfiança com a economia brasileira. Pih afirma que faltam no governo ajustes estruturais para reduzir o gasto público - como uma mudança no cálculo do salário mínimo, que afeta diretamente a previdência, e ajustes nos benefícios sociais e nas desonerações aos setores produtivos, além do fim aos subsídios na concessão de crédito pelo BNDES.
Ele lamenta que o Estado tenha se agigantado nos últimos anos. Passou a representar 36% do PIB, percentual que sobe para 42% se consideradas as estatais. "E o governo só pode investir de 2% a 3%? Algo está errado", observa. Pih não vê como ambicioso um esforço fiscal de R$ 64 bilhões para se atingir um superávit de 0,7% do PIB em 2016 se for considerado que a arrecadação federal é de R$ 2,2 trilhões. "O gasto público tem que ser mais eficiente", afirma.
Apesar da sua visão crítica em relação ao governo e ao Partido dos Trabalhadores (PT), no qual foi um dos primeiros empresários a declarar apoio, na década de 1980, Pih não acredita que o impeachment da presidente Dilma seja uma solução construtiva para o Brasil. "Não podemos, neste momento de grandes dificuldades políticas e econômicas, nos dar ao luxo de criar um impasse constitucional", afirma.
Mas reconhece que o estresse político continuará por um tempo. "Estamos em um país onde a vocação da oposição é ser situação. A maioria dos políticos tem projeto próprio".
O escândalo exposto pela Operação Lava Jato trouxe uma grande contribuição à desaceleração econômica em curso, afirma. "Nem eu, que sou um pessimista, imaginava uma queda de 3% no PIB este ano. O ambiente econômico se deteriorou muito rapidamente. E o escândalo têm seu papel, na medida em que municia a imprensa semanalmente com denúncias contra congressistas e grandes empresários".
Mas "não há crise que não termine", diz. Quando decidiu pelo país, nos anos 50, após uma peregrinação por Europa, EUA e África, o pai de Lawrence Pih, vislumbrou que o Brasil trazia as melhores oportunidades. "Eu pesquiso o mundo inteiro. Os outros países emergentes também estão em situação difícil", analisa Pih. Ele menciona tanto os da América Latina quanto os do Oriente Médio e do Leste da Europa. "O Japão patina, a Europa não sai do lugar e os EUA crescerão 2% este ano. Vivemos uma situação difícil, mas o Brasil ainda traz oportunidades".
Valor Economico
Produtos relacionados
Ver esta noticia em: english
Outras noticias
DATAMARK LTDA. © Copyright 1998-2019 ®All rights reserved.Av. Brig. Faria Lima,1993 3º andar 01452-001 São Paulo/SP